2006/05/23

Cenas tristes (O Irmão do Conde)

Lisboa – Benfica, fim de tarde do Inverno de 1989, Av. Tenente-coronel Ribeiro dos Reis.

- O trânsito não facilita nada… mais rápido ou perdemos o tipo.
- Calma que não vale a pena bater, senão é pior a emenda que o soneto.
- Raio, estes tipos não se mexem. Viste a matrícula? Nada só vi que era um Uno.
- Só faz azelhices o tipo, lá vai ele... palhaço!
- Esquece isso e não percas o tipo do Mercedes. Esse é que interessa.
- Vai ali, vai ali… entrou na Reinaldo dos Santos. Se entra na Segunda Circular, podemos dizer-lhe adeus, nem a matrícula lhe tiramos.
- Vou ligar as rotativas, atenção ao cruzamento, está vermelho.
- Dá-lhe uma “gaitada” que eles andam cegos… sai da frente pá, não vês os “pirilampos”?!
- Passámos, dá-lhe gás que ainda o estou a ver, vai mesmo para lá.
- Esta treta não anda mais… primeiro que desenvolva!
- Entra, entra, que o estou a ver. Entra e encosta tudo à esquerda. Se vai para a A-1, nada feito.

O velho e pesado Opel 2004 arrastava-se ao longo da Av. General Norton de Matos em perseguição do Mercedes 200 que tinha de ser interceptado antes de sair da área de acção do carro-patrulha (CP). Atrás de nós uma nuvem poluente despejada pelo escape, composta pelo menos de 50% de diesel mal carburado, 40 de óleo e a percentagem restante de difícil diagnóstico, formava uma cortina preta, certamente tão visível a partir do espaço quanto a Grande Muralha, retirando a visibilidade de quem nos precedia. Não fora a fumarada causada pelo combustível fóssil e qualquer um diria que era um veículo da Era dos Flinstones (a começar nos buracos no chão do mesmo e passando por outros que me escuso a comentar, este em tudo se assemelhava). O condutor do Mercedes aumentava a velocidade e a custo o charuto rodava, melhor arrastava-se na sua peugada, com a sirene ligada. Esta, além de ser abafada pelo ronco do motor Perkins, tinha um dos tons avariados. Desta forma, em vez de fazer o clássico Tii-Nóo-Nii, só debitava uns tímidos e afeminados agudos, “Tii” e “Nii” já que, o grave “Nóo” há muito que deixara de berrar. Como se não bastasse, aqueles apitos amaricados eram abafados pelos indescritíveis ruídos que saíam da lata da nívea. Realmente, ainda hoje questiono qual a força oculta que punha aquele cancro em movimento e qual a divindade que o ressuscitava sempre que lhe era encomendada a alma ao criador.

Apesar de ter sido uma autêntica corrida Lebre versus Tartaruga (sem quaisquer desprimor para os pachorrentos anfíbios), depois de guinar por entre os atónitos utentes da via, que ficavam basbaques a mirar o serpenteado preto que íamos deixando pela via, aproveitando uma fila de trânsito, aliás uma das crónicas filas da Av. General Norton de Matos, lá pusemos a lata a par do reluzente e garboso 200 fazendo sinal ao condutor para sair na próxima saída à direita e deter o carro. Isto claro, acompanhado de efusivos gestos com os braços, feitos pelo chefe da viatura e pelo tripulante, atrás deste. Tinha de ser assim pois os vidros do lado direito há muito que não abriam. Imobilizadas as viaturas, o condutor, visivelmente agastado com a algazarra e aparato, fuzilou-nos, melhor, metralhou-nos com o olhar e pela cara que fazia, dizia algo para a senhora que seguia ao seu lado que deduzo seriam palavras nada abonatórias para as nossas pessoas.

- Boa tarde Sr. Condutor.
- Boa tarde?! Vou aqui cheio de pressa e vem para aí com Boa Tarde? Fiz alguma asneira? Se fiz, deixe-se de sermões; disso e de vocês estou eu farto. Faça o favor de se despachar a passar a multa.

O indelicado homem (confesso que perante esta atitude, estou a ser benevolente), tinha uma visível aversão a polícias, resultado de alguma má experiência anterior com a autoridade o que acrescia de uma soberba directamente proporcional a um pavão em plena corte e má educação q.b. Por várias vezes o “afectado” se intitulou irmão de um Duque, famoso da nossa praça e familiar directo do titular ao trono da Nação, coisa que pouco nos tocava a nós, simples assalariados da República, apontando para o brasão da Monarquia Portuguesa aposto na traseira do automóvel. O arvorado do CP, impávido e sereno, talvez anestesiado pelos gases de escape da viatura, habituado a coisas bem piores, fitou o homem com a maior das calmas do mundo enquanto este desfiava um rosário de queixas, lamúrias e um sem fim de barbaridades. Vendo que os polícias nada faziam nem se lhe respondiam, ao fim de uns bons minutos, lá fechou a torneira das prosápias e parou a verborreia descabida. Nesse momento, até o ruído estrondoso do avião que nos sobrevoava em direcção à Portela parecia o suave canto de um canário.

- Já terminou? – questionou o Alves.
- Qual é o problema? Multa-me, diz o que fiz de mal ou vai ficar aí especado o resto do dia? Veja lá se decide que já estou atrasado que baste! Não basta furar a merda da roda, agora ainda tenho de levar com vocês. Não tem mais nada que fazer? É por ter um Mercedes, é? Diga lá qual é a multa e despachamos já isto. Cambada de incompetentes, vêm da parvónia armados em autoridade… nem falar sabem. Está bonito este país!...
- Bem, já que insiste, vou então autuá-lo… por não possuir o triângulo de pré-sinalização de perigo no veículo.
- É mesmo isso? Ora vejam lá – o irritante sujeito dirigiu-se à mala do carro, abriu-a e começou a remexer o interior – está aqui, vai ver. Não queria mais nada, não? Está aqui, meteu os pés pelas mãos…

Ao fim de muito rebuscar e remexer, o homem, lívido, com os olhos esbugalhados e as narinas dilatadas, tal era a dificuldade que tinha em expressar o que lhe ia pela alma, contornou o carro e dirigiu-se à mulher que inicialmente o acompanhara e incentivara a invectivar-nos, mas estava agora mais calada que um rato.

- O triângulo? Onde meteste a merda do triângulo?
- Na estrada, atrás do carro, onde mudaste a roda – a mulher enfrentou-o com semblante ofendido.
- E porque não o puseste outra vez dentro do carro?!?!... gritou o colérico infractor.
- Porque me mandaste entrar dentro do carro e disseste para não fazer mais nada.
- Agora vou ser multado porque não tenho a porra do triângulo. Além disso tenho de encontrar um sítio onde possa comprar outro. Só me arranjam destas.

Dirigiu-se ao Guarda Alves, de documentos em punho e este, em poucos instantes identificou o furibundo homem que não se calava.

- Não pode ser só pelo triângulo, eu sei. Mas não vou pagar, não vou, não. Eu tinha o triângulo e esqueci-me dele lá atrás – enquanto dizia isto, o Alves devolvia-lhe os documentos.
- Não vá lá; não vale a pena, é tempo perdido.
- Tem medo que eu conteste a multa, não é? E que leve testemunhas a tribunal a dizer que tinha o triângulo, lá onde mudei a roda, não é?
- Podem testemunhar, não me oponho, mas também testemunharão a nosso favor.
- Pois, “amiguinhos” pois, pois!!... Sei como isso funciona.
- Não, nada disso. Se tivesse calma há muito que já teria passado Vila Franca. O que se passou foi que essas pessoas viram-no arrancar com o carro e esquecer-se do triângulo na estrada. Depois, viram-nos passar, alertaram para o facto, indicaram o seu carro ainda ao fundo da rua e nós só viemos no seu encalço para entregá-lo ao dono. Foi por esta simples razão que o mandámos encostar – presenteou-o com uma irrepreensível continência, desejou-lhes um resto de bom-dia, entrou no carro patrulha e rematou antes de bater a porta do CP – Ah! Olhe que tem quinze dias para pagar a multa ou então deixe seguir para tribunal. Não se esqueça de fazer pisca quando arrancar, que não o fez quando foi mandado parar. Passa desta vez. Boa viagem.

O Nobre irmão do Conde, ficou ali, de pose perdida, braços caídos, a ver o CP partir. Numa mão a multa e na outra o triângulo que lhe deu origem.

Os Trapezistas de Liverpool

Ainda ando a remoer a coragem de dois adeptos ingleses que vi entoando cânticos de exaltação ao seu Liverpool F.C. Nada de admirar, não fosse a particularidade de naquela noite estar um vento gelado, daquele que até bloqueia o cérebro e os tipos estarem vestidos com os calções e camisolas do clube e com umas bandeiras de pano fino. À falta de peixe frito com batatas fritas, os “beefs” lá aderiram à bela bifana e ao consagrado coirato e ali estavam eles, junto da rulote das respectivas, com uma litrada de cerveja com que alimentavam as entranhas e adormeciam a clarividência. No meio da populaça que espreitava, enregelada, para o televisor onde se via o jogo que decorria ali ao lado, no Estádio da Luz, estes teriam passado desapercebidos, já que trajando da mesma cor dos locais, loucos daqueles, em trajes quase menores, temos cá qb, agora passar o jogo todo, entre adeptos adversários, vangloriando os feitos do seu clube (não se calaram, mesmo quando o Benfica, quase no final da partida, desferiu o golpe de misericórdia nos visitantes). Talvez a velha aliança Luso-britânica tenha contribuído para os dois “supporters” serem tolerados entre a mole de lampiões que além do frio a que resistiam, viam os efeitos deste serem aumentados pela visão dos dois britânicos, ali em pêlo, sem que nada os fizesse vacilar. Há dias de sorte, digo eu. Mas, mesmo perdendo, lá foram eles confraternizar com todo o “fair-play” com outros adeptos, portugueses e ingleses.
O amor clubista presta-se a estas coisas e a natureza humana é propícia a vencer desafios, a alcançar metas, a atingir fins, competir e testar limites, sejam eles de grande importância e significado ou então coisas mais fúteis, como um mero jogo de “tetris” desses que temos nos telemóveis. Eu ando para bater o recorde da minha filha, há semanas e sinto-me muito próximo de o conseguir; sendo uma banalidade, serve de exemplo para demonstrar esse tal carácter de competitividade.
Findo o Benfica Liverpool, não demorou muito a que se esvaziasse a área envolvente na zona do Estádio da Luz. O tempo estava bom para comemorar noutros locais que não a rua. Vendo que as coisas estavam calmas no Metro, o comandante do policiamento mandou levantar a operação montada para a vigilância e acompanhamento no mesmo e tratei de recolher a minha rapaziada. O ponto de reunião era junto a uma das rulotes em frente ao Colombo, agora em tempo de levantar arraiais mas onde ainda se despachavam as últimas buchas e “bujecas”. Éramos sete e após saciarmos os estômagos com a famosa “fast-food” à portuguesa (deixem que os tipos da Mc.Donald’s se apoderem da ideia e ainda verão um dia uma versão yankee do belo coirato franshisada pelo globo), café bebido para assentar as gorduraças e toca a entrar para a carruagem do metropolitano, rumo aos Restauradores. A carruagem ia composta. Poucos eram os que vinham do Estádio. A grande maioria era os habituais utentes daquela hora, funcionários do centro comercial ou clientes que regressavam a casa, nada de gente eufórica, vinda do Estádio, daqueles que destabilizam sempre o ambiente, quer tenham ganho ou perdido. Connosco entraram cinco ingleses, todos na casa dos 35/40 anos que destoavam no meio dos passageiros não pelo seu aspecto de “bárbaros do norte”, mas sim porque entoavam cânticos, bem desafinados diga-se, glorificando o seu clube. Raios, os tipos tinham perdido mas mesmo assim, faziam um chinfrim do caraças. Bem, enquanto fosse só barulho, bastava ir de olho nos seus movimentos e no resto dos descendentes de Viriato que com ar tolerante lhes iam aturando as lengalengas. Somos mesmo um povo tolerante e hospitaleiro, pensei, enquanto os observava. Uma troca de olhares entre nós foi o suficiente para que se mantivessem todos alerta, não fosse algum lusitano mais nacionalista, armar-se em papoila saltitante, transformar-se em heroi e começar a desancar na bifalhada.

A certa altura da viagem, por entre cânticos que alternavam entre as glórias clubistas e explícitos achincalhamentos à Lusa Pátria e seus nacionais, dois dos britânicos dispuseram-se a efectuar algumas habilidades de tipo circense pendurando-se nas pegas de apoio do tecto, fazendo demonstrações de força braçal e baloiçando-se à laia de trapezistas de feira. Os “Mens” começavam a entrar na provocação mais que explícita; começavam a provocar um certo mal-estar e rapidamente se abriu um espaço em seu redor. Quem estava por perto decidiu sair dali para evitar problemas. Os destemidos ingleses, vendo os efeitos da sua acção, continuaram na sua conduta, cada vez mais espalhafatosa e aproveitaram para afastar mais alguns passageiros. A receita era óptima. Por aquele andar, à escala da carruagem, dentro de minutos teríamos um enclave britânico tipo Gibraltar, ali mesmo, dentro do comboio. A populaça já não estava a gostar muito da brincadeira e as coisas não estavam piores porque a língua dos Ilhéus era desconhecida para a maioria, além de estar misturada com valentes cargas etílicas que dificultavam a compreensão para quem percebia o inglês.

Eu observava esta cena muito próximo da fronteira do espaço conquistado pelos irrequietos senhores, tentando manter a calma enquanto jogava uma partida de “tetris” no meu telemóvel. Estava confiante que em breve os tipos se cansariam ou então sairiam no Marquês de Pombal e aí seguiríamos o grupo, para “espiar” os seus passos, não fossem fazer das deles. Ali dentro, era mais complicado intervir sem que houvesse danos colaterais e era melhor evitar confrontos entre a populaça, tanto mais que, à civil, é mais complicado actuar nestas situações. Eis quando, estando eu nestas cogitações, um dos “artistas” balança-se com mais força, bate com os pés no tecto da carruagem e no movimento descendente quase me atinge com as botifarras que trazia calçadas. Decidi que tinha de acabar com aquilo. Já estava a passar das marcas e a tolerância termina quando se entra nos limites do achincalhamento e da provocação. Dirigi-me ao “trapezista”, exibi-lhe a carteira policial e dirigi-me a ele num inglês de escola:

Police, stop...That's Enough. We will put an end to this, already.

O tipo, manteve-se pendurado nos apoios do tecto, olhou-me com desprezo total, “arreganhou” a dentuça e deve ter pensado lá para ele, o que seria que aquele peso- pluma ali em frente queria fazer com ele.

Stop now – tornei.

Fuck of… – o animal, além de mal-educado, era atrevido e logo encolheu as pernas para me pontapear.

Felizmente a minha reacção foi mais expedita, já que o tipo, além de já estar cansado, tinha os movimentos adormecidos pelos litros de cerveja que guardava no estômago. Segurei-lhe um dos braços e precipitei-me sobre ele, caindo ambos no chão da carruagem. Na tentativa de amparar a queda, a minha mão, em vez de assentar no chão, assentou-lhe na cara e logo por azar, era aquela em que tinha a carteira profissional, ficando-lhe marcado o distintivo da corporação na testa à laia de troféu de batalha. Os que o acompanhavam, ao ver a cena, acorreram em seu auxílio e não vinham certamente com vontade de me convidar para uma cerveja no Cais do Sodré. Mas rapidamente se viram dominados, um por um pelo resto dos polícias que iam discretamente embrulhados com os passageiros. Olhei em redor. O espaço “conquistado” pelos ingleses, além de retomado, tinha agora ficado mais deserto de utentes que antes da sua investida. O tipo, apesar dos apelos dos seus consórcios, que entretanto tomaram consciência da realidade, ainda continuava a tentar atingir-me, apesar de dominado por dois dos meus rapazes. Entre encontrões e bofetadas (nestas ocasiões há sempre quem aproveite para dar umas palmadas), uma velhota, a única que resistira sentada ali junto dos atrevidos ingleses, aproveitava para distribuir umas “frutas” e “carolos” no indivíduo, misturadas com uns certeiros e rápidos golpes da sua mala de mão; no meio da breve contenda, terá sido ela quem mais “molhou a sopa”.
Acalmadas as coisas, encetado diálogo entre o mais “sensato” dos do grupo, após uns incontáveis “apologizes” das quais só acredito na sua sinceridade pelo medo de ir em cana, não pelo respeito pela autoridade, lá saíram eles, nos restauradores e mandados para o exterior do Metro, para apanharem um pouco de ar fresco e reflectir. O mais atrevido deles, à saída da carruagem ainda continuou a insistir que queria “conversar” comigo, “man to man”, lá fora na “street” e não parava de dizer que um dia ainda me iria lembrar dele. A velhota que atrás referi, ainda o atiçou mais. À nossa saída gritou toda esganiçada um vitorioso e estridente – Viva o Benfica!...
Ah! Já me esquecia; não é que o sacana do inglês me fez perder o jogo quando faltavam menos de 100 pontos para bater o recorde da garota!...

A Gargantilha Roubada

Muitas horas mediavam já entre captura de Jorge e a inevitável ida para a 3ª Esquadra da PSP do Funchal, imenso, aliás, tendo em conta que entre o crime e a dita, só tinha passado o tempo que levava a dobrar a esquina e dar de caras com o cívico de serviço permanente ao Banco de Portugal. O azarado larápio, após efectuar um roubo por esticão, apoderando-se de uma gargantilha de ouro que reluzia no pescoço de uma turista, encetou uma fuga abruptamente travada pelo choque com agente de serviço à Instituição. Este, logicamente, viu logo que, a julgar pela velocidade, a correria não seria fruto do treino para a S. Silvestre; essa é uma prova de fundo. A seguir, já se imagina. A vítima acusou-o de roubo, ali no local e o Jorge lá foi dar com os costados na Esquadra.

Cumpridas as formalidades da detenção, antes de se iniciar a feitura dos autos respectivos, cumpriu-se o ritual da revista integral ao arguido. Desde a inevitável navalha, bem afiada (dizem sempre que é para cortar a fruta, depois de almoço, porque será!?), ao sacramental charrito e claro a sempre amiga “mixa”, que o Jorginho era multifacetado e não se dedicava só aos puxões, mas da gargantilha, nada. A senhora apresentava ainda as marcas do puxão no seu pescoço, branco ariano que seria imaculado, não fora os vergões encarniçados provocados no momento do ilícito.

- Onde está a “ourina” – perguntou-lhe o Tavares, recém promovido a subchefe e que fora colocado na Madeira em regime de deslocamento.

- E eu sei lá o que é isso; sei lá do que está a falar – ripostou o “gandim”.

- A “ourina”, sabes muito bem o que é. Cá, como lá no Continente, o significado é o mesmo, não te armes em anjinho e toca a falar.

- Não tenho nada comigo. Pode tornar a revistar-me. Já viu que não tenho nada. Não roubei nada, não sei porque estou aqui.

- Há várias testemunhas que te acusam, logo, não venhas para cá com cantigas. Confessa logo o que fizeste à gargantilha que roubaste antes que me salte a tampa, ouviste!? – O Tavares estava a começar a entrar em ebulição, mas o certo é que o tipo não tinha mesmo nada com ele. Teria ele lançado o produto do roubo para algum bueiro ao ver-se caçado pela polícia?

Entretanto, um dos turistas que acompanhavam a vítima, à custa de um alemão misturado com inglês e com muita mímica à mistura, lá desvendou como o meliante se desembaraçara do ouro. Quer dizer, não foi bem desembaraçar, foi mais esconder. O tipo tinha metido a jóia na boca e tinha-a engolido, nem mais! Agora, ali estava o traste, com ar de “engole espadas” e a gozar o pagode.

- Como é? Tens essa mera no bucho, não é?

- Venha cá ver se apalpa alguma coisa. Pode ser que chocalhe…

- Eu é que te chocalho seu cabrãozito… ainda estás a gozar!... – o Tavares estava prestes a entrar em órbita.

Entre uma série de berros e de o informar que iria fazer um raio-x no hospital e que lhe seria aberto o estômago e os intestinos caso o colar não saísse pela cloaca do larápio, eis que entra um oficial superior do comando, trajando civilmente, tido por ser mais duro com os seus subordinados que propriamente com os criminosos, tudo à custa da “boa imagem” e dos direitos dos arguidos que não poderiam ser expostos ao que ele chamava de “humilhações desnecessárias”. A imagem de defensores de todos os direitos, à luz da sua interpretação desses direitos, não admitia que se aumentassem os decibéis das questões feitas perante evidentes criminosos.

- Pronto, já vai haver merda, disse alguém entre dentes.

- Eh, Pá! Pois é, está tudo estragado.

- Então que se passa aqui? – a frase fora dura, mas curta e logo não deu sequer para se denotar a gaguez do oficial. Sim, porque o senhor, patinava a fala, em especial em situações que impunham mais celeridade no diálogo ou quando o clima era mais tenso.

- Meu Comandante, boa noite. Está ali aquele “melro” que roubou uns turistas que estão ali dentro. “Esticou” uma gargantilha em ouro que não aparece e ele nega-se a dizer onde está. Suspeitamos que a tenha engolido.

- E é assim que...que...que se resolvem as coisas? Queeem quer que pa...a..a..asse lá fora, pen...en...ensa que estã...ã...ão aqui a to...o...orturar al...al..guém! Quem oiça a grita...a...aria, que pensará? E estes se...e...enhores? Lá no país de...e...eles não estã...ão habituados a estas co...oisas. Acham que vão fa...a...alar bem dos métodos da po...o...olícia portuguesa pe...pe...perante esta vergonha? Que imagem quer o Sr. Su...su...subchefe que eles levem da Madeira? – escandalizado, o oficial lá continuou o seu discurso, longo e censurador, uma autêntica ode à boa prática de interrogatórios policiais, rematado com um mini tratado de abordagem a um ladrão. O Jorginho estava alheado com a chegada deste salvador. Com um bocado de sorte, o “Garganta Funda” ainda ia seguir o seu caminho em paz e mais tarde lá aliviaria o produto do roubo, algures no meio de um campo de bananeiras, mas se aquela “treta” ficasse dentro do bucho ou da tripa fétida, a coisa poderia ficar feia. O seu semblante era visivelmente de preocupação perante a possibilidade de ter de expor as suas entranhas à curiosidade alheia. Ninguém lhe garantia até que, caso tal sucedesse, que um dos assistentes do “evento” tivesse já sido vítima de uma das suas “diabruras”. O tipo estava preocupado e sob esse ponto de vista, tinha razão e quase dava dó, só de pensar. O “anjo salvador” aproximou-se então junto dele preparando-se para demonstrar como se lidava com este tipo de situações. Parou mesmo diante do malandro, que permanecia sentado, entrelaçando os dedos, visivelmente nervoso e alheado do episódio anterior. Jorginho permanecia de cabeça baixa.

- Entã...ã...ão rapaz, vamos lá con...on...onversar então – o benévolo oficial, mandou afastar os dois guardas que ladeavam o detido e colocou-lhe uma mão sobre o ombro – vá lá filho, conta lá o que se passou. Estes senhores gua...a..ardas não te ba...ba...bateram, pois não?...

O discurso estava fora da esfera de compreensão dos turistas que apreciavam a cena, sem entender bem o que se passava pela barreira linguística que nos poupava à vergonha e pela gagez acentuada, porque para os restantes, tirando uma ou outra palavra, já não era novidade. Apre, aquela era a versão mais lírica do “polícia bom” e do “polícia mau” que alguma vez eu apreciara. É que ela só é aplicada quando não se tem muita informação ou certezas acerca dos suspeitos, mas este, mais que suspeito era um arguido prestes a pedir que lhe fizessem uma lavagem ao estômago antes que empancasse a tripa. De repente, o mitra, apercebendo-se que a “guarda de honra” estava desguarnecida, endireitou o tronco e deparou-se com uma cara, bem à sua mercê e a pedir um afago nas faces. Aplicou um valente soco na cara do seu interlocutor que caiu para o lado desamparado enquanto os seus óculos descreviam uma parábola, desfazendo-se nas pedras da calçada da parada. Claro que o atrevido, foi logo dominado e evitou-se a sua fuga pela porta do Comando e após ser algemado, foi novamente sentado, sem que fosse molestado, após a agressão ao “maior” da casa, cumpriu-se a sua vontade de manter os direitos do arguido. Ferido, o oficial, escondendo o local da cara atingido por tamanha “pêra”, apontou para o ladrão e visivelmente afrontado lá disse a custo - Fo…ooo…oddda…asss.... pre.. pren… preen…prendam esse gajo - e foi-se embora, entre os risos abafados de todos os presentes (sem excepção, acho eu).

2006/05/22

Que se lixe a cerveja!...



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Lisboa era uma enorme cuba de fermentação de cerveja, em laboração contínua. Estava no auge do Euro 2004 e os gerentes de restaurantes, bares, cervejarias, cafés, tascas e afins esbracejavam, gritando aos telemóveis, implorando às distribuidoras a rápida reposição de stock do precioso líquido, que jorrava quase ininterruptamente ao longo do dia e noite. O débito das torneiras era impressionante e a meio da manhã, os níveis das cubas estavam abaixo da reserva. Só uma acção concertada do S. Martinho, com o pagão Baco, mediada pelo popular (e residente) Santo António que, não duvido, terá negociado alguma cota de mercado nas festividades do seu culto pessoal, terá permitido que tanta gente mantivesse em constante funcionamento os seus sistemas de depuração sanguínea. Por toda a baixa Lisboeta, tomada desde muito cedo por milhares de adeptos, na sua maioria britânicos que entoavam os seus cânticos, rivalizando com as modas das festas dos Santos Populares. Rivalizavam os cânticos e os cheiros, já que à falta de sanitários em número suficiente, nem a sardinha assada conseguia impor o seu perfume!
Os excessos, uns mais tolerados que outros, surgiam por toda a parte e manifestavam-se não tanto pelo seu impacto na fuga à “normalidade”, mas mais pela frequência com que se praticavam. Falo claro do excesso de ruído, ocupação de vias de trânsito, desrespeito pela sinalização e claro, as tradicionais demonstrações de projecção do xixi em comprimento (versão masculina, mais comum e internacionalizada), e na importada variante feminina, sem dúvida mais rara por estas paragens, mas de longe mais espectacular.
A missão das forças de segurança era manter esta mole de gente em euforia etilizada dentro do razoável limite do admissível, cabendo aos responsáveis das forças no terreno manter as coisas controladas.
Numa das noites que antecederam um jogo da selecção inglesa, parecia que Trafalgar Square se tinha transferido para o Rossio. A proporção de fiéis adeptos das equipas ainda em competição era esmagadoramente favorável em número para os súbditos de Sua Majestade. A quantidade de “infiltrados” em missão de controlo era a normal e cerca das 23H30, foram dadas ordens precisas para o encerramento de todos os estabelecimentos, em especial os mais próximos da Praça D.Pedro IV. A concentração de “suporters” contudo, não arredava pé e aumentava cada vez mais junto à confluência da Rua da Betesga com o Rossio e a Rua da Prata. Parecia a Praça de S.Pedro em dia de Pontifica aparição pública.
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- Raios, já fecharam todas as “tascas” e a malta não arreda pé!
- Pois é Chefe, não estão com muita vontade de ir embora. Sem cerveja, ainda desatam a partir montras e portas dos estabelecimentos para ir beber à força.

A turba de gente, concentrava-se cada vez em maior número e reparei que todos olhavam para uma varanda do Hotel Internacional. Os câticos de apoio à Velha Albion, tinham sido trocados por vários gritos dos quais se percebiam alguns “come back” e “come on… take-off that…”. Intrigado, aproximei-me, tentando vislumbrar os motivos porque todos olhavam para o ar. Mas nada se via. Decidi então abordar um português que avidamente esbugalhava os olhos em direcção de uma varanda do hotel.

- Tá animado isto aqui!...
- Oh pá, tá demais; uma delicia… tá uma gaja ali dentro que disse que ia mostrar as mamas à varanda – informou-me o deliciado lusitano, sem ousar desviar os olhos da dita varanda – só faltam umas cervejinhas.

Imbuído de “elevado espírito de missão”, não tardei a fixar o olhar no balcão, decorado com a bandeira inglesa e de onde a qualquer momento se aguardava a pública aparição da ousada menina. Por várias vezes, uma vistosa loiraça, aproximava-se do varandim e ameaçava retirar a t-shirt que lhe cobria o tronco. Cada vez que o fazia, a populaça, em uníssono, disparava em alvoroço os mais variados gritos de incitamento, desafios, enfim, um autêntico rol de expressões e orações pejadas do mais baixo vernáculo multilingue. Alguns, mais desesperados, faziam tentativas para trepar pelos ornamentos arquitectónicos da bela fachada do Hotel onde a ninfa, em moderna versão da Shakespeariana Julieta, incitava os potenciais e etilizados Romeus. Alguns, à boa maneira britânica, faziam apostas entre eles, jogando o número de vezes que ela apareceria até expor os seus atributos, outros prometiam-lhe noite de sonho como ela nunca tivera. A portaria do hotel estava fechada e reforçada por vários polícias que a custo conseguiriam fazer recuar quantos não arriscavam opções radicais de ataque ao castelo e preferiam a segurança das escadas e elevadores. A carga policial estava eminente e a donzela continuava a fazer as suas ameaças de exibição. Eis então que, um dos principais responsáveis policiais no local, perante a eminência de uma intervenção que por certo mancharia a imagem quase exemplar do evento nacional nos olhos do mundo, teve um rasgo de génio, ao reparar que, apesar do espectáculo eminente estar a atingir o auge, os bifes continuavam a protestar contra o encerramento dos locais de venda de cerveja. Encarregou-se de fazer passar a palavra que, na zona do Bairro Alto, a cerveja ia ser vendida a preços mais módicos e estavam próximas várias “happy-hours”. Em breves segundos, o efeito passa palavra, teve o efeito desejado. Era vê-los a perguntar onde era esse tal de Bairro-Alto. A multidão iniciou a sua peregrinação no momento preciso em que a moçoila, talvez por ver a multidão em debandada e ver-se ferida na sua popularidade, debruçada sobre o vazio do balcão, retira a camisola e exibe as mamocas à populaça, agitando-as, enquanto gritava uns guinchos de chamamento ao seu rebarbado público. Esperava-se nova investida da audiência em dispersão, após tamanha provocação e por breves instantes veio-me à lembrança a célebre cena do filme Apocalipse Now em que Frederic Forrest, o Jay “Chef” Hicks, acompanhado dos restantes camaradas, quase devoram as coelhinhas da Play-boy, em pleno Cambodja. Mas, surpresa das surpresas, enquanto aquela visão se mantinha, suspensa e em exibição pública, a maioria dos conterrâneos da candidata a “coelhinha”, afastava-se, com o argumento unânime de que aquelas maminhas eram uma vergonha e não eram dignas representantes das súbditas de Sua Majestade; o Bairro-Alto é que estava a dar.
Contudo, alguns dos assistentes não arredavam pé. A grande maioria, portugueses, franceses, espanhóis, que até aí, pouco se tinham notado no meio da maioria britânica. Abordei novamente o interlocutor que me informara acerca do que ali se passava
.
- Então amigo, grande espectáculo, eh! eh!
- Podes crer, mano… quero lá saber da cerveja, meu!

Na verdade, há diferentes formas de viver a vida, ehehe!
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fotos retiradas daqui

Nota: esta estória está ligeiramente alterada, embora mantenha o essencial da realidade. A menina na foto, é a "diva" referida e continuo a procurar, incessantemente, uma foto dessa memorável noite :)

O LADRÃO QUE VEIO DO AR (ou o azar de Miqueias)

Quando se fala tanto da falta de respeito para com a autoridade do Estado e em especial para com aqueles que a corporizam, vem-me à memória um episódio que demonstra bem ao ponto a que as coisas chegaram. Falta de princípios? Desespero? Falta de noção dos seus actos ou excesso de confiança na sua sorte? O relato que se segue, não mete tiros, nem danos físicos – digo eu, que não estava presente – mas suponho que arrancará alguns sorrisos a quem o ler, tal como terá sucedido a todos quanto tiveram conhecimento dos factos.

O clima andava pesado no Departamento. Não é nada agradável para ninguém chegar um dia ao seu local de trabalho e verificar que este foi alvo de uma visita de amigos do alheio. Fora isso que acontecera e a malta andava num afã terrível para deitar a mão ao autor de tal façanha. Tinham furtado uma impressora do gabinete de apoio da Esquadra e ainda um rádio-leitor de cd’s do agente Vítor. Algo nos levava a desconfiar que a obra teria sido perpetrada por um só indivíduo, já que o sítio estava pejado de maquinaria mais valiosa de menor volume. O tipo entrara pelo tecto falso e andara ali por dentro a remexer nos gabinetes, mas só levou aqueles objectos; teria ele controlado os movimentos das diferentes brigadas e aproveitado no fim-de-semana para furtar no Departamento? Só poderia ser, já que só conhecendo bem os movimentos da casa alguém poderia arriscar tal empresa e estava fora de questão ter sido alguém da equipa o responsável pelo desaparecimento dos objectos.

O Chefe estava furibundo e obrigou ao redobrar de atenção e procedimentos de segurança no local, entre os quais, passagens frequentes e inopinadas das equipas de serviço pelas instalações, em especial aos sábados, domingos e feriados para prevenir futuras “visitas”.

No sábado a seguir ao assalto, Lizandro decidiu despachar uma série de processos que lhe estavam distribuídos e aproveitou a calma da tarde desse dia para se dedicar a essa tarefa.

A estação do Rossio não tinha o bulício habitual dos dias de semana. Não se via mais ninguém além daqueles que há muito, faziam parte do quadro da entrada do Terminal. O “pulga”, sem-abrigo, com a sua farta cabeleira e barba, autêntico clone do Barry Gibb dos Bee Gees dos anos 70, alternando entre a entrada e a gare, os funcionários dos quiosques de jornais e do mini bar, os homens das bilheteiras, dois ou três taxistas à espera de clientes e os inevitáveis prostitutos e “voyeurs” de pilinhas alheias no WC da estação. Tudo normal. O dedicado agente, entrou no Departamento e logo se dispôs a dar vazão às conclusões que tinha em mão. Sentou-se em frente ao computador e começou a escrever. Só o som dos comboios e o matraquear das teclas contrastava com o silêncio da sala mas longe de distrair o rapaz que estava absorto na redacção de autos, informações, cotas e relatórios. Eis que, ao fim de algum tempo após ter iniciado o seu trabalho, algo interrompeu esta rotina de sons ambientais. Um som, vindo do tecto, despertou a sua atenção.

- Raio das ratazanas – terá pensado Lizandro – olhando para cima irritado com aqueles roedores que já lhe tinham roído um par de luvas de “motard”.

O barulho continuou e algo de estranho tinha. Não se parecia nada com o som de patas de roedor. Os gatos também não faziam barulho daqueles. Mais parecia um rastejar, mesmo ali por cima da sua cabeça. Olhou para cima ao mesmo tempo que alguns grãos de pó e areia caíam sobre si. Estaria o tecto falso prestes a desabar? Não teve tempo de colocar mais hipóteses acerca do que estaria a provocar os ruídos. Mesmo por cima dele, as placas precipitaram-se para o solo e do meio da nuvem de pó subsequente, junto com elas, o corpo franzino de um homem que literalmente aterrou no colo do polícia. Incrédulo, Lizandro fitou o recém aparecido como um parteiro o fará certamente após o nascimento de uma criança. Ali nos seus braços, envolto em fuligem, pó e destroços do tecto falso, estava Miqueias, um errante cidadão do mundo, brasileiro, com a massa muscular suficiente para manter o esqueleto erecto e que após abrir os olhos, vendo-se no “aconchego” dos braços de Hercúleo agente balbuciou um característico “Oi!... como vai!... tudo bem com você?...”

Lizandro, ainda incrédulo pela “aparição”, agarrou no atrevido pelas costas da camisa, lançou-o ao chão e algemou-o ali mesmo.

- Quem és tu, pá. O que fazes aqui? – gritou o surpreendido Lizandro.

- Desculpa “seu” guarda, pensava que não tinha ninguém… - respondeu o Miqueias.

- Vinhas aqui fazer o quê, responde já?!?!...

- Vinha falar com um “policial”, colega seu… – tornou o larápio, não escondendo a mentira esfarrapada.

Poupo-me a pormenores do que se passou a seguir, não porque não os possa contar, mas para salvaguardar a intimidade dos primeiros momentos entre um “pai” e “filho” que devem ser respeitados. Apurou-se que o assaltante pretendia continuar a “limpar” o recheio da Brigada já que tinha sido ele quem no sábado anterior o larápio da impressora e do rádio-cd. O rapazola tinha sido levado ao Departamento, dias antes para ser identificado, por suspeita de furtos e roubos na área do Rossio e tivera o tempo suficiente para congeminar a transferência da propriedade da panóplia de tecnologia ali exposta e fácil de transportar.

Confrontado com uma oportunidade de amenizar as consequências da sua ousadia caso restituísse os artigos que furtara na semana anterior, o Miqueias, lá se comprometeu a devolver os mesmos. Assim, foi preso, presente na segunda-feira seguinte ao Tribunal que lhe instaurou Termo de Identidade e Residência (estranho sempre este procedimento legal quanto aos sem-abrigo, mas deve ser pelo apregoado excesso de prisão preventiva!) e na terça-feira ao final da tarde, lá estava ele, à porta do Departamento, com a impressora recuperada. O rádio, esse “já era”, ou seja, já tinha sido despachado. Conforme o prometido, foram elaborados autos da ocorrência abonando em seu favor tal comportamento tendo-me cabido tal tarefa.

- Estás arrependido ou nem por isso? – perguntei-lhe a certa altura.

- Nunca mais me meto noutra – garantiu o Miqueias.

- Vejo que coxeias e que a tua cara não está muito bem tratada… caíste?

- Não Chefe, não é nada não!...

- Alguém te bateu aqui dentro? Olha, garantiram-me que não… vê lá o que foste dizer lá para o Dr. Juiz. Sei o que se passou e não gosto de acusações sobre factos que não aconteceram. Essas mazelas que tens, foram por causa da queda do tecto?

- Não senhor… foi o pessoal lá do Intendente.

-Então, andaste à “pêra” por causa de alguma ganza ou quê?

- Que nada! Foi o homem que tinha a impressora e seus “capangas”…

- Não me digas! Deixa-me ver; não lhe disseste que era para devolver à polícia ou então nós íamos lá apreender tudo o que ele tivesse na loja?!? Foi isso que te disseram para fazer, não foi?

- Pois, eu fiz igualzinho a isso aí, mas antes de lhe dizer isso, ele me jogou a impressora na cabeça, todo irado!...

- Porquê? Disse algo a alguém que ia passar por lá?

- Não… o cara diz que eu o enganei em 25€. Experimentou o aparelho e estava quebrado… aí, me carregaram de porrada.

- Eh! Pá! Que azar!

- Que nada, senhor, sorte!...

- Sorte?!?! Levas um “arraial” desses e dizes que tens sorte?!?!

O mariola, retirou 20€ do bolso das calças e terminou o raciocínio lógico:

- Sorte sim; se me pedissem o dinheiro de volta, talvez não estivesse aqui para devolver o aparelho…

Bem vistas as coisas, talvez tivesse razão; com tanto azar poderia ter sido bem pior!...